Modéstia no vestir

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Será bom recordarmos aqui o que nos diz a Sagrada Escritura a este propósito: «O Senhor Deus fez a Adão e a sua mulher umas túnicas de peles e vestiu-os» (Gn 3,21). Por que é que Deus teria vestido os dois primeiros seres humanos, se antes estavam nus? A mesma Escritura nos esclarece:

 

«O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo. Deu-lhe este preceito: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente.” (...) A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente. Então os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si. (...) Mas o Senhor Deus chamou o homem, e disse-lhe: “Onde estás?” E ele respondeu: “Ouvi o barulho dos vossos passos no jardim; tive medo, porque estou nu; e ocultei-me.” O Senhor Deus disse: “Quem te revelou que estavas nu? Terias tu porventura comido do fruto da árvore que eu te havia proibido de comer?” O homem respondeu: “A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi.” O Senhor Deus disse (...) ao homem: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.” (...) O Senhor Deus fez para Adão e sua mulher umas vestes de peles, e os vestiu.» (Gn 2,15-16;3,6-21)

Este texto sagrado mostra-nos como Deus cobriu os corpos que, pelo pecado, se despojaram a si mesmos do vestido da graça. Por isso, todos nós temos o dever de nos vestirmos com decência, modéstia e dignidade. As pessoas que se apresentam indecentemente vestidas, tornam-se um incentivo ao pecado, sendo responsáveis não só pelos pecados próprios, mas também pelos pecados que outros cometam por sua causa. Pensem que a moda, se indecente - e vemos que o mundo, infelizmente, segue-a como se fosse uma lei -, é um ardil diabólico, uma rede astuciosa, onde o Demônio apanha as almas, como os caçadores se apoderam da caça nos matos e nos campos.

O vestido não nos foi dado por Deus como um adorno para servir à vaidade e à leviandade humana, mas sim como defesa contra o pecado, como um sinal de penitência pelo pecado cometido e de castigo pelo mesmo, e para que nos recorde as leis de Deus que todos nós estamos obrigados a cumprir.

Vejamos, primeiramente, como ele é um sinal de castigo e de penitência pelo pecado e como é defesa contra as tentações. O texto sagrado nos diz que, após o pecado, Adão e Eva procuraram cobrir-se com folhas de fiqueira; mas Deus não achou suficiente esse vestido, porque Ele «fez - diz a Escritura Sagrada - a Adão e à sua mulher umas túnicas de peles e vestiu-os» (Gn 3,21).

(...) Notemos, porém, que Deus não nos impôs o vestido somente com estas duas finalidades - castigo e penitência pelos nossos pecados -, mas atribuiu-lhe ainda outros objetivos. Além de ser uma defesa contra o pecado, o vestido modesto com que nos devemos cobrir é como que um distintivos que nos diferencia no meio da corrente da imoralidade e pelo qual damos ao mundo um testemunho de Cristo.

Irmã Lúcia

Serve também para nos recordar as leis de Deus e a grava obrigação de as observar. Ao Seu povo, o Senhor chegara a pedir para colocar, nas suas vestes, sinais concretos que lhes lembrassem os Mandamentos sagrados: «Dize aos israelitas que façam para eles e seus descendentes borlas nas extremidades de suas vestes, pondo na borla de cada canto um cordão de púrpura violeta. Fareis essas borlas para que, vendo-as, vos recordeis de todos os mandamentos do Senhor, e os pratiqueis, e não vos deixeis levar pelos apetites de vosso coração e de vossos olhos que vos arrastam à infidelidade.» (Nm 15,38-39).

Reparemos bem naquilo que Deus nos diz aqui: As franjas dos vossos vestidos são para vos recordar os mandamentos do Senhor, a fim de os praticardes e não vos deixardes levar pelos apetites do vosso coração e dos vossos olhos, que vos arrastam à infidelidade. Os nossos vestidos devem, pois, ser um resguardo dos olhos e do coração, para não nos deixarmos arrastar pelas tentações da carne, do Demônio e do mundo. As franjas [borlas], de que se fala no texto, supõem por certo adornos nos nossos vestidos; mas é preciso que eles estejam de acordo com a modéstia, com a dignidade da pessoa humana, com o pudor, em resumo, com a moralidade, de modo a servir-nos de estímulo para a observância dos mandamentos da Lei de Deus.

Consideremos, por fim, a expressão que Deus emprega: «durante todas as gerações». Isto faz-nos pensar que não foi só para os Israelitas de então que o Senhor falou; o que Ele mandou diz respeito também a nós, hoje, tal como valerá ainda para os vindouros: não na forma externa do sinal escolhido, que naturalmente muda, mas no significado e objetivo próprio, que não podemos perder de vista, para respeitarmos a ordem das coisas como Deus as criou. Porque a Lei é de Deus, e não muda: permanece imutável como Ele. É o Senhor mesmo quem no-lo diz, no Evangelho: «Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição. Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei.» (Mt 5,17-18). Quem a observa, salvar-se-á; quem não a observa, será condenado!

Apelos da Mensagem de Fátima
págs. 28 a 30